Doação de órgãos cai pelo 4º ano seguido

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O vendedor Alessandro Oliveira da Silva, de 32 anos, teve diagnosticada uma doença crônica no rim em outubro de 2004 que exigiu dele entrar para a fila de transplante, que hoje soma mais de 570 goianos. Alessandro – que tem um tipo raro de sangue – ficou menos de um ano na espera. Em agosto de 2005, ganhou um novo órgão. Os outros não tiveram a mesma sorte, e, segundo relatório da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a tendência é piorar: o número de doadores, em Goiás e no Brasil, é cada vez menor. Os dados da ABTO fizeram com que a entidade antecipasse sua campanha nacional para alertar a população sobre a necessidade de se tornar um possível doador.

O número de doadores de órgãos é uma curva decadente no Brasil nos últimos quatro anos. No primeiro semestre de 2007, o índice de doadores brasileiros ficou em 5,4 por milhão de pessoas. Em 2006, neste mesmo período, era 5,8 por milhão. Em 2005, 6,4. E no ano anterior, chegou 7,6 no primeiro semestre.

Em Goiás, esse índice está em apenas 2,5. Países desenvolvidos apresentam números bem maiores. Na Espanha, por exemplo, são 35 doadores por milhão de habitantes. Nos EUA, são 23. E no Canadá, 12.

TRANSPLANTES
Em Goiás, são realizados apenas transplantes de coração, rim e córneas. Apesar de os números do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) do Ministério da Saúde apontarem uma evolução no volume de cirurgias de 2001 até 2005, desde então os casos vêm se tornando cada vez mais raros.

O número de transplantes de rim, que em 2003 chegou a 97, caiu para 72 no ano passado. E nos seis primeiros meses deste ano apareceram, segundo a ABTO, só sete doadores do órgão. O caso de quem precisa de um coração é mais grave, já que neste ano não apareceu nenhum doador do órgão em Goiás até agora. A média por ano era de três cirurgias, apesar de haver 12 pessoas na fila da espera.

Os doadores de córnea são em maior número porque o tecido pode ser retirado mesmo após parada cardíaca do paciente. Diferente do que acontece em outros casos, quando a doação só pode ocorrer com a morte encefálica do doador. Mesmo assim, o Estado contou com apenas 230 doadores neste semestre. Em 2006, foram realizados em Goiás 795 transplantes de córneas.

A ABTO critica a ausência de uma política estabelecida para os transplantes e a desigualdade na distribuição dos centros reguladores. A queda apresentada no relatório vai contra as expectativas da entidade, que esperava um crescimento de 0,5 por ano no índice de doadores por milhão de habitantes. Em 1997, quando o sistema foi criado, a taxa era de 2,7 no Brasil.

O problema nem sempre é a falta de doador. Em Goiás, a ABTO registrou 89 pessoas aptas a serem doadoras, mas em apenas sete casos a doação foi concretizada. A resistência da família – seja por motivo religioso ou cultural – é apontada como a causa das recusas em 26% dos casos. Somente a família pode autorizar ou não a doação, mesmo que o falecido quisesse doar. Em outros 22%, os médicos avaliaram que o procedimento não obteria êxito. E houve seis doações que não se concretizaram porque os hospitais onde os possíveis doadores vieram a óbito não tinham estrutura para retirar o órgão.

A conscientização é apontada como o principal meio de reverter esse quadro. Alessandro sabe o que é isso. Antes do transplantes, diz que não era tão empolgado com a idéia. Hoje alerta: “A verdade é que a gente nunca sabe quando vai precisar. É algo complicado de se convencer, mas é preciso. Só quando você depende disso para viver é que percebe a real importância. Infelizmente ainda tem muita família que não se deu conta disso”.

A reportagem tentou entrevistar a coordenadora da Central de Transplante de Goiás, Telma Noleto, mas ela se encontra em um congresso promovido pela ABTO em Florianópolis (SC). Por telefone, disse que não poderia atender a imprensa.